quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Há cem mil anos a despensa dos humanos já teria cereais

Descoberta feita numa gruta em Moçambique relevou que a nossa espécie terá começado a ingerir cereais, e a aproveitar o seu amido energético, há bastante mais tempo do que se supunha. Alguns arqueólogos não estão, no entanto, totalmente convencidos.
O advento da agricultura era então algo ainda longínquo e os humanos da nossa espécie, Homo sapiens sapiens, baseavam a sua alimentação na caça e na recolha dos frutos, nozes e raízes que encontravam. Os cereais, pelo menos tanto quanto as descobertas arqueológicas permitiam dizer, iriam ainda manter-se arredados milhares de anos da despensa dos seres humanos. Afinal, pode não ser bem assim: vestígios de sorgo encontrados numa gruta em Moçambique revelaram que há cem mil anos já comíamos cereais.
Em 2007, o arqueólogo Julio Mercader, da Universidade de Calgary (Canadá), esteve a escavar na gruta de Ngalue, no Noroeste do país, com colegas moçambicanos da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Ao fim de um corredor com 20 metros de comprimento, a gruta desemboca numa câmara escura, com 50 metros quadrados e um tecto a oito metros de altura, que foi habitada de forma intermitente, ao longo de mais de 60 mil anos, por caçadores-recolectores.
Bem no interior da gruta, encontraram-se diversos tipos de ferramentas de pedra, ossos de animais e restos de plantas, depositados em camadas de sedimentos com 42 mil a 105 mil anos. Ora nas camadas com mais de cem mil anos o arqueólogo deparou-se com ferramentas que apresentavam vestígios de amido, oriundo principalmente de sorgo selvagem (quase 90 por cento dos restos de amido provinham deste cereal), segundo revela Mercader num artigo científico que publicou na revista Science. Outros vestígios de amido detectados provinham da palmeira-africana (que dá vinho), da batata-africana ou da bananeira-da-abissínia.

Esta é apresentada como a prova directa mais antiga do consumo
dos cereais pelos humanos modernos.

Início da agricultura
Qual a importância da descoberta relativa ao sorgo? É apresentada como a prova directa mais antiga do consumo dos cereais pelos humanos modernos, como se chama também à nossa espécie, surgida há cerca de 200 mil anos.
Até há pouco tempo, pensava-se que os humanos só começaram a comer grandes quantidades de cereais com a domesticação das plantas há dez mil anos - ou seja, com o aparecimento da agricultura. Esta ideia foi abalada em 2004, quando uma equipa de cientistas disse ter descoberto vestígios de trigo e cevada numa ferramenta de pedra com 23 mil anos, encontrada em Israel. O artigo de Mercader na Science veio portanto revelar que começámos a comer cereais cerca de 80 mil anos mais cedo do que se supunha até agora.
Pensava-se que os cereais teriam entrado tardiamente na alimentação humana por uma simples razão: como não é fácil torná-los saborosos, têm de ser transformados em farinha e cozidos em pão ou papas. Além do dispêndio de energia, isso é tecnologicamente difícil, pelo que se pensou que só bastante tarde os humanos começaram a tirar proveito do seu conteúdo em amido, como uma reserva energética. Hoje, o sorgo é o principal cereal consumido na África subsariana, onde a sua farinha até é fermentada em bebidas alcoólicas.
"Isto alarga a cronologia do uso de cereais pela nossa espécie e prova a existência de uma dieta sofisticada mais cedo do que pensávamos. Aconteceu numa altura em que, convencionalmente, se considerava a recolha de grãos selvagens como uma actividade irrelevante e não tão importante como a da apanha de raízes, frutas e nozes", sublinhou Mercader, citado numa nota da sua universidade.

Passo na evolução humana
"Tem-se colocado a hipótese de que o amido representa um passo crítico na evolução humana, ao melhorar a qualidade da dieta humana na savana africana e nas terras húmidas, onde evoluíram os humanos modernos. Isto pode ser considerado um dos exemplos mais precoces desta transformação na dieta", acrescenta o arqueólogo. "A inclusão de cereais na nossa dieta é um importante passo na evolução humana por causa da sua complexidade técnica e da manipulação culinária que exige para transformar os grãos em bens de consumo."
Nem toda a gente concorda com a interpretação de Mercader. Por exemplo, o arqueólogo Curtis Marean, da Universidade Estadual do Arizona, considera que os cereais podem ter sido utilizados em muitas coisas, como servir de cama, segundo declarações suas numa notícia tambémda Science: "O custo do processamento dos cereais selvagens é muito elevado. Além disso, a maioria dos ambientes africanos tem uma diversidade de alimentos mais produtivos para os caçadores-recolectores."
Na mesma linha crítica, Huw Barton, da Universidade de Leicester, no Reino Unido, diz que os resíduos de sorgo estão em ferramentas que não eram utilizadas no processamento de cereais. "Isto não tem qualquer sentido para mim", comenta.
A tudo isto, Mercader responde: "Por que é que alguém iria levar sorgo para uma gruta, a não ser que estivesse a fazer alguma coisa com ele? A explicação mais simples é a de que era um bem alimentar."
Seja qual for a interpretação mais próxima da realidade, o certo é que a descoberta na gruta de Ngalue lançou o debate sobre o que guardavam os primeiros Homo sapiens sapiens nas suas despensas.

In: Público
Por Teresa Firmino
04.01.2010 - 10:46

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Novas publicações




L'Anthropologie
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Représentations préhistoriques. Images du sens (1/3)





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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Quaternary International



Volume 211, Issues 1-2, Pages 1-156 (1 January 2010)
Hominin Morphological and Behavioral Variation in Eastern Asia and Australasia: Current Perspectives
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Volume 22, Number 4 / December, 2009
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L'Anthropologie






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Représentations préhistoriques. Images du sens (1/3)

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Archaeology, Ethnology and Anthropology of Eurasia


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Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology

Volume 284, Issues 3-4, Pages 115-396 (30 December 2009)

Quaternary Science Reviews


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Journal of Human Evolution


Volume 58, Issue 1, Pages 1-110 (January 2010)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Tecnologia Óssea


No passado mês de Novembro a Societat Catalana de Arqueologia e a Universitat de Barcelona organizaram um curso intensivo sobre o tema "Os, Banya i Ivori- Curs sobre tecnologia del traball de les matèries dures animals a la Prehistòria" que decorreu entre os dias 9 e 13 e no qual o NAP esteve representado.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mar Mediterrâneo «encheu-se» em menos de dois anos com a maior inundação de sempre

O Mar Mediterrâneo “encheu-se” com uma descarga de água que chegou a ser mil vezes superior ao actual rio Amazonas no espaço de alguns meses a dois anos e não de dez a dez mil anos, como se pensava até agora.

Esta é uma das principais conclusões de um estudo do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) de Espanha, publicado na revista "Nature", em que se recorda que o Mar Mediterrâneo quase chegou a secar há seis milhões de anos, ao ficar isolado dos oceanos durante um período de tempo prolongado, devido ao actual levantamento tectónico do Estreito de Gibraltar.

Quando as águas do Atlântico encontraram de novo um caminho através deste estreito, encheram o Mediterrâneo com a maior e a mais brusca inundação que a Terra jamais conheceu, referem os cientistas. Esta enorme descarga de água, iniciada provavelmente pelo abatimento do istmo que liga a África à Europa e o desnível de ambos os mares (de 1500 metros), inundou o Mediterrâneo a um ritmo de até dez metros diários de subida do nível do mar.

Daniel García-Castellanos, investigador do CSIC acrescentou que "a inundação que pôs fim à dessecação do Mediterrâneo foi extremamente curta e, mais do que assemelhar-se a uma enorme cascata, deve ter consistido numa descida mais ou menos gradual desde o Atlântico até ao centro do Mar de Alborán".

Erosão de 200 quilómetros não foi causada por um rio

Daniel García-Castellanos
Daniel García-Castellanos
O estudo revelou que este episódio provocou no fundo marinho uma erosão de 200 quilómetros de comprimento e vários quilómetros de largura. Nos anos 90, os engenheiros do túnel que devia unir a Europa e África estudaram o subsolo do Estreito de Gibraltar e depararam-se com este rego de várias centenas de metros de profundidade, repletos de sedimentos pouco consolidados.

Na altura pensaram que esta enorme erosão tinha sido causada por algum rio de grande caudal durante a época de seca extrema do Mediterrâneo. Neste estudo, os investigadores espanhóis demonstraram que a erosão não foi produzida por um rio, mas sim por um enorme fluxo de água procedente do Atlântico.

Os investigadores frisaram ainda queuma mudança tão grande e abrupta na paisagem terrestre como a que se deduziu “poderá ter tido um impacto notável no clima daquele período”.

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=37805&op=all

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

11º aniversário da classificação da Arte do Côa


Assinalando o 11º aniversário da classificação da Arte do Côa como Património da Humanidade, temos o gosto de convidar V. Exa. para a apresentação de uma publicação monográfica resultante da investigação sobre o Paleolítico superior no Baixo Côa ao longo de mais de 10 anos, obra coordenada por Thierry Aubry. A apresentação, a cargo de Fernando Real e de Thierry Aubry, decorrerá na sede do PAVC, no dia 4 de Dezembro de 2009, pelas 19h.