
Com esta iniciativa, a Câmara Municipal de Lagos procura consolidar o relacionamento entre a população de Lagos e a estação arqueológica de Monte Molião, ex-libris desta cidade.

Espaço onde se podem ver vestigíos com 1500 anos de intervalo
Foto de Raquel Esperança
Preservação assegurada
O complexo arqueológico começou a ser explorado em 1997, um ano depois de se ter percebido a extensão da sua riqueza pré-histórica, após se terem cancelado os trabalhos para se plantar uma nova vinha na Herdade do Esporão, pertencente a José Roquette. Dois terços do complexo estão localizados nesta herdade e são classificados como "reserva arqueológica". O restante espaço encontra-se situado noutros terrenos, mas está sob várias condicionantes, o que dá garantias em relação à preservação do recinto. Além disso, o complexo dos Perdigões tem vantagens de exploração porque não está sob outras construções, como acontece a outros antigos povoados, que mesmo tendo uma maior dimensão do que este não podem ser explorados na sua totalidade.
Já a rede de rega do Alqueva tem feito aparecer zonas com grande interesse arqueológico no Alentejo, que têm conduzido à ideia de que as chamadas "sociedades pré-históricas" são, afinal, mais complexas do que o que se pensava anteriormente.
Miguel Lago, o director da Era-Arqueologia afirma, em relação ao estudo nos Perdigões, que o projecto é "de várias gerações", pois diz que, em poucos anos, não é possível desvendar o "enorme potencial" do recinto.
Essa demora no ritmo de investigação só é possível, segundo Miguel Lago, por ser um projecto privado. Financiado pela Era-Arqueologia, pelo Esporão e pela Sociedade Alentejana de Investimento e Promoção e ainda com o suporte logístico assegurado pela Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz, esta pesquisa não sofre pressões de âmbito comercial, o que facilita a adopção dessa "dinâmica diferente". Os interessados na investigação são, normalmente, académicos da área que respeitam directrizes científicas e é com base nas suas análises que poderá ser conseguida uma maior credibilidade para o complexo, tornando possível a continuação da aposta nesse ritmo diferente.
Nesse sentido, o trabalho levado a cabo pelo Departamento de Pré-História da Universidade de Málaga, encabeçado por José Márquez Romero, deverá apresentar resultados definitivos da investigação feita num fosso a nordeste do recinto, no início do próximo ano. Para já, foram descobertos cornos de bovino e mandíbulas de porco na sua escavação, onde, ao longo dos anos, têm sido encontrados outros restos de fauna, segundo disse Miguel Lago. A equipa espanhola ambiciona descobrir se o enchimento desse fosso desde a sua abertura decorreu de forma natural e aleatória, ou se, de outra maneira, resultou de uma acção ritual dos povos que habitavam a área.
Estes artefactos agora conhecidos juntam-se assim, por exemplo, a uma mandíbula humana ou a figuras zoomórficas, como uma minúscula forma milenar de um coelho, presentes no museu arqueológico da herdade.
In: Público
13.08.2009 - 10h00
Diogo Cavaleiro



Gala Gómez, membro do IPHES, mostra o úmero.
O úmero tinha marcas feitas por utensílios de pedra quando se quer retirar a carne, iguais aos fósseis de animais encontrados no mesmo local. “É claro que alguém tentava retirar a medula do osso, que é muito apreciada na alimentação. Tratava-se de uma humanidade muito primitiva, eram 400 mil anos mais antigos que o Homo antecessor de Gran Dolina”, explicou José María Bermúdez de Castro, co-directora das escavações.
Há muitos casos de canibalismo documentados no outro local referido pela paleontóloga. Os investigadores questionam uma possível relação entre os dois locais, embora estejam bastante afastados no tempo.
“Existe a possibilidade de terem tido uma origem comum no Próximo Oriente, mas que sejam descendentes uns dos outros. Outra possibilidade, que me parece mais possível, é que tiveram uma origem comum, mas chegaram aqui em vagas diferentes”, sugere Bermúdez de Castro.
No caso de Gran Dolina, sabe-se que o canibalismo era devido a uma luta de território, por ser mais quente e com muita água, e por isso era muito procurado. Os que conseguiam matar os competidores comiam-nos.
in PÚBLICO
15.07.2009
