Mostrar mensagens com a etiqueta ANTROPOLOGIA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ANTROPOLOGIA. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Estatuetas descobertas no Alentejo têm 4500 anos e cabem na palma da mão

Têm o corpo esguio, bem delineado, tatuagens faciais e olhos
grandes que poderiam ter incrustações (Fotos cedidas pela era)
São de marfim, cabem na palma da mão e têm pormenores delicados, que surpreendem. António Valera, o arqueólogo que dirige as escavações na Herdade dos Perdigões, em Reguengos de Monsaraz, fala com entusiasmo das estatuetas de marfim que ontem apresentou aos jornalistas como "descoberta única" em Portugal. 

"Difunde-se muito a ideia de que o homem pré-histórico era rude, um brutamontes, graças ao cinema", diz Valera. "Mas o que povoados como o dos Perdigões mostram, com toda a sua simbiose com o mundo natural, é algo que estas esculturas vêm reforçar - nesta Pré-História havia um grande grau de sofisticação que está muito longe do preconceito."

Com 4500 anos, as 20 esculturas em miniatura (com tamanho entre os 12 e os 15 centímetros), "pelo menos nove das quais muito realistas", começaram a ser encontradas no ano passado, quando os arqueólogos escavavam um fosso onde, depois de cremados, foram depositados vários corpos. Para os investigadores da Era, a empresa que há 15 anos trabalha nos Perdigões, a herdade que a Finagra (actual Esporão S.A.) comprou para plantar vinha, mas que acabou por transformar num campo arqueológico com 16 hectares, encontrar representações humanas de marfim, "com grande qualidade estética e de execução", foi "emocionante", embora não tenha sido uma surpresa completa.

Estatuetas semelhantes são relativamente frequentes na Andaluzia, região com a qual o Sul do país forma uma unidade territorial na Pré-História. Como escavaram apenas uma área muito reduzida deste complexo arqueológico em que descobriram já mais de 500 peças e fragmentos de marfim, entre elas algumas representações de animais muito pormenorizadas, Valera e a sua equipa acreditavam que, mais cedo ou mais tarde, poderiam vir a dar com esculturas antropomórficas. "O que surpreendeu foi o rigor realista de algumas das figuras, que terá exigido grande capacidade técnica", explica.

Para Vítor Gonçalves, catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, especialista em Pré-História, a grande singularidade das estatuetas humanas dos Perdigões é simplesmente o facto de terem sobrevivido milhares de anos às agressões do solo alentejano. "Temos poucas figurações antropomórficas de marfim na Pré-História portuguesa, mas ainda menos no Alentejo, porque lá a terra é tão ácida que destrói tudo", explicou ao PÚBLICO pelo telefone, não tendo visto ainda ao vivo as peças da herdade. A descoberta, que considera "impressionante", é para este arqueólogo mais uma das originalidades dos Perdigões, a juntar ao facto de ser um "complexo mágico-religioso alentejano em que os sepulcros não são antas". 

Conhecido desde 1983, o sítio dos Perdigões só começou a ser escavado em 1997, depois de um estudo geotérmico, que fez uma espécie de radiografia à paisagem, ter identificado uma série de fossos concêntricos, mais ou menos circulares, e outras estruturas: possíveis cabanas, silos e sepulturas. 

O que os trabalhos têm revelado nos últimos anos, explica Valera, é que o povoado, que começou por ser construído por comunidades neolíticas (c.5500 anos), teria grande importância na região, tendo sido, possivelmente, lugar de festas cerimoniais e de rituais associados ao culto dos mortos. O cromeleque perto da necrópole, já fora dos limites do povoado, reforça esta teoria.

"Estas povoações, das antigas sociedades camponesas, eram já capazes de construir obras públicas de envergadura, como estes fossos. Identificámos 12 e fizemos sondagens em quatro. Para fazer estes quatro estimamos que terão sido retiradas 60 mil toneladas de rocha, impressionante para as ferramentas rudimentares da época", diz Valera. 

Em seguida, os arqueólogos vão aprofundar os estudos dos materiais nas valas e nas sepulturas com a ajuda de antropólogos da Universidade de Coimbra e fazer sondagens nos fossos para determinar a idade de cada um e a dinâmica de ocupação do povoado. Pelo meio, há que continuar a analisar as "miniesculturas". Para já as perguntas são muitas e as certezas quase nulas. Porque são tão realistas numa altura em que a representação da figura humana é essencialmente estilizada, como prova a maioria das 20 estatuetas? Serão deuses? Porque têm algumas o género tão bem definido e outras são assexuadas? 

Têm o corpo esguio, com as nádegas e o tronco bem delineados, nariz e orelhas definidas, tatuagens faciais, cabelos a cobrirem as costas, olhos grandes que poderiam ter incrustações e as mãos sobre a barriga, segurando o que parece ser um bastão. "Nesta fase só podemos lançar hipóteses, especular", reconhece Valera. "São todas muito parecidas e o facto de serem realistas faz-nos pensar que podem querer comunicar uma ideia muito específica. A própria postura do corpo pode ter um significado, como quando nos ajoelhamos na igreja. Podem representar um estatuto social, um grupo dentro da comunidade ou até mesmo uma família." Mas também podem ser divindades, teoria que parece mais provável a Vítor Gonçalves, que conhece as estatuetas da Andaluzia. "Muitas das representações humanas neste período, como as das placas de xisto portuguesas, estão ligadas à deusa-mãe. Depois, progressivamente, chegamos a outras de um deus jovem."

Os arqueólogos dos Perdigões vão também estudar o marfim de que são feitas. Dos 500 fragmentos encontrados nos Perdigões analisaram apenas 15 e concluíram que se trata de marfim de elefante africano, o que prova que o povoado mantinha contactos com regiões distantes. Mas entre os restantes pode haver elefante asiático, marfim fóssil (de quando havia elefantes na Península) e até osso de outros animais, explica Valera. Na península de Lisboa, acrescenta Gonçalves, já foram encontrados fragmentos de cachalote. 

Muitos dos enigmas das esculturas dos Perdigões vão ficar por decifrar, diz o director das escavações, mas os problemas que elas colocam, associados às práticas funerárias, sobre a concepção do corpo são só por si fascinantes. E se para o homem que viveu no Alentejo pré-histórico o corpo não fosse uma unidade? "É difícil saber o que vai na cabeça das pessoas de há 5000 anos." Mas vale a pena pensar nisso.

domingo, 3 de junho de 2012

Organic tools found in Stone Age camp

Sensational new archaeological find reveals paddles and bow in underwater Stone Age settlement

This film shows the paddles being cleaned at the Moesgård Museum. The film has no sound. 

Stone Age people didn't only use tools made out of rock – they also used tools made from wood and antlers, according to a new discovery in Danish waters.

The Stone Age settlement has been hidden under water and a thick layer of sand over millennia. But over the past few years, sea currents have exposed it by pushing the seabed aside.

Settlement known for decades
The village lies deep underwater by the coast in Horsens Fjord, Denmark.

Archaeologists have known about the site since the '70s, but due to the inaccessibility, it wasn't until a recent trip to the site by an archaeology student at Aarhus University that something started to stir.

Peter Alstrup went to his nearby beach to trace old footsteps from when he used to go to the beach with his parents. As part of his frequent swims along the coast back then, he had built himself a glass box through which he could study the seabed in great detail from the surface.

He had heard about an area where a Stone Age village was supposed to be buried. He often visited this area and found flint flakes from ancient times, and this is what made him want to go on and become an archaeologist.

The 6,000-year-old paddles were found exposed on the seabed.
(Photo: Claus Skriver)
 
Revisiting the underwater playground
More than a decade later, in the summer of 2010, Astrup went back to the beach, this time wearing a diving suit.

He noticed straight away that the seabed looked different, with most of the sand vanished from the subsurface. This enabled him to spot some beautifully shaped pieces of wood, which at some point had clearly been crafted by humans.

As soon as I got home, I called up my local museum to tell them about what I had found. We agreed that I should go down and pick up few items and bring them in,” says Astrup, who is currently a PhD student of archaeology at Aarhus University.

He brought back with him undamaged antler axes, wooden knife handles and the skull of a dog.

When the archaeologists at the museum saw this, they realised they had run into something unique. They quickly assembled a group of archaeologists from the area who rushed into their digging.

The paddles had black patterns drawn on them.
(Photo: Moesgård Museum)
Ideal location for excavation site
In many ways the area is ideally placed for archaeological excavation. Located just off the coast, it's neatly hidden away from all beach activities. But since it lies in shallow waters, excavation is relatively easy, regardless of whether the archaeologists wish to dig into the underground, chart the area or simply pick up objects from the bottom of the sea.

They looked specifically in a certain sediment layer under the sand, characterised by its low oxygen levels and its ability to preserve organic materials.

Here they found objects that revealed an industrious community of hunter-gatherers. These included beautifully ornamented antler axes with well-preserved wooden shafts and a highly surprising find of a pair of wooden rowing paddles, richly decorated with black patterns.

Anoxic sediment preserves wood
The archaeologists also found a 1.6-metre high wooden bow of a hitherto unknown type. These bows have probably been used some 6,000 years ago, when large parts of Denmark were covered in woods, making it an ideal hunting ground.

In addition, they also found a piece of string made out of bast fibres, which was as thick as a woollen thread. These strings are thought to have been used for frapping tools.

Excavation leader Claus Skriver of the Moesgård Museum explains what makes these finds so special:

When we excavate settlements on land we only find tools of stone, since all organic matter has long since rotted away. This settlement is unique because we also found well-preserved objects made out of wood and antlers, and that gives a much more nuanced insight into how people lived back then.”

Axes with well-preserved wooden handles were also found at the bottom.
(Photo: Claus Skriver)
Seasonal or permanent residence?
The excavation can also help the researchers find answers to some great questions such as whether the settlement was being used throughout the year or whether it was a seasonal dwelling place where people lived over certain periods of the year.

The archaeologists found the answer looking through their bore holes through the organic silt. Here they found an abundance of fish bones, which are remnants from the residents’ meals. They also found well-preserved seeds and hazelnut shells.

There are examples of Stone Age people moving into certain sites when, for instance, fishing prospects looked good, when it was colder than usual or when the surrounding woods were crowded with herds of animals.

With all these bones, we can now outline in detail what these people lived on and also which periods of the year they lived there,” says Skriver.

Specifying which parts of the year the site was inhabited is a demanding task, but the new finds make it relatively easy to date the village.

We’re trying our hardest to date the settlement using the Carbon-14 method,” says the researcher. “But the design of the site suggests that it’s from the middle or late Ertebølle period [see factbox]. The oldest section of the site was habited some 6,700 years ago.”

A sea of objects left to explore
The excavations are currently limited to only a few square metres of seabed.

Most of the objects discovered so far have come loose from the subsurface as a result of ocean currents. This means that the archaeologists manage to find new and exciting objects every time they visit the site.

The objects need to be picked up carefully. Wood that has been in water for long periods has had all its cell membranes dissolved. So when the wood dries up, there is nothing left to hold it together, and after only a few hours in dry air, the wood starts to crumble and fall apart.

Settlement known internationally
Peter Alstrup has taken part in all the excavations so far and is excited about the next visit to the site:

The settlement is no longer something I can keep to myself – now I’m just happy to share it with others,” he says.

Thanks to our excavations, this site has now entered the top 10 list of the best archaeological finds in Denmark in 2011 and is already a much discussed topic in international archaeological circles.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Bioarqueóloga americana analisa vestígios humanos recolhidos na gruta da Lapa do Suão

Do material contido em 20 caixas,
teve de separar os vestígios
 humanos dos vestígios animais.
Durante seis semanas, o Museu Municipal do Bombarral foi a “casa” de Jennifer Guffey, bioarqueóloga oriunda da Universidade de Louisville, Kentuky, nos Estados Unidos da América. A investigadora foi ao Bombarral analisar os vestígios humanos recolhidos nas décadas de 70 e 80 na gruta da Lapa do Suão, na Columbeira, tendo a Câmara cedido o alojamento.
Do material contido em 20 caixas, teve de separar os vestígios humanos dos vestígios animais.
Após determinar se os elementos eram referentes ao lado esquerdo ou ao direito, cataloguei cada um deles, determinando o número de indivíduos, e, nos casos em que foi possível, a sua idade e o sexo. Por vezes, consegue-se determinar se é masculino ou feminino e que idade tinha quando faleceu. Consegui descortinar algumas patologias e doenças e verifiquei a existência de marcas em alguns ossos, algo que penso estar relacionado com alguns rituais executados no momento da preparação do defunto”, relatou.
A especialista contou que “encontrei ossos de crianças com menos de dois anos de idade, bem como várias crianças entre os 2 e os 10 anos de idade e algumas entre os 10 e os 15 anos. Na maioria são adultos com idades a partir dos 23 anos, havendo igualmente alguns com cerca de 50 anos. Os mais velhos terão entre os 50 e os 55 anos”.
Alguns dos vestígios serão do período Neolítico enquanto outros poderão ser da Idade do Cobre.
Em abril Jennifer Guffey irá fazer uma apresentação dos resultados à Sociedade Americana de Arqueologia numa conferência, na cidade de Memphis, Tennessee, nos EUA.

La Sagrera descubre una enorme fosa con 125 hombres prehistóricos

La Barcelona del futuro, la que construye la macroestación del AVE, el nuevo corredor ferroviario cubierto por un parque de Sant Andreu y el centro económico y residencial de La Sagrera, ha topado de nuevo con un pasado que cada vez es más remoto. El movimiento de tierras para levantar la terminal ferroviaria ha destapado cerca del puente de Bac de Roda un yacimiento prehistórico sin precedentes por su dimensión y su estado. Los arqueólogos han descubierto hasta ahora, porque los trabajos siguen y continuarán durante bastante tiempo, los restos de 125 individuos del neolítico de unos 4.000 años de antigüedad.

La espectacular masa de huesos de la fosa que se va desenterrando progresivamente muestra que los cuerpos descarnados no han sido removidos en estos siglos. Su disposición es la misma que cuando fueron sepultados, probablemente en un periodo muy corto de tiempo, sin signos de violencia.

«Es un hallazgo excepcional, de referencia internacional, de aquellos que salen en los libros de historia», dijo ayer a este diario Josep Pujades, responsable de intervenciones arqueológicas del Instituto de Cultura de Barcelona que dirige el teniente de alcalde del área, Jaume Ciurana. Los enterramientos prehistóricos con tantos individuos son muy infrecuentes y aún más con la mayoría de cuerpos en una disposición que los expertos llaman de conexión anatómica, es decir, con los huesos en la posición original del cuerpo humano, sin remover.

Algunos de los restos humanos del neolítico hallados durante los trabajos del AVE en La Sagrera. FRANCESC ANTEQUERA / PAZ BALAGUER
TRABAJO INTENSIVO / En la zona trabajan de forma intensiva en dos turnos, sábados incluidos, una decena de arqueólogos, tres de ellos como directores de una labor que ejecuta la empresa especializada Codex. Estos expertos realizan su cometido en una verdadera isla en medio del mar de las obras de la macroestación que, por ahora, siguen adelante a buen ritmo. Según explican fuentes de las constructoras, de allí se han extraído ya más de medio millón de metros cúbicos de tierras, un volumen enorme casi parecido al que se ha sacado en la perforación de los cinco kilómetros del túnel del AVE entre La Sagrera y Sants por el subsuelo de todo el Eixample.

El gestor de infraestructuras Adif, ente del Ministerio de Fomento responsable del proyecto de la alta velocidad, es quien costea esta excavación arqueológica así como todas las demás, hasta 16 incluida la villa romana sepultada ya junto al antiguo puente del Treball Digne, que se llevan a cabo en los cuatro kilómetros de corredor entre el puente de Bac de Roda y el nudo de la Trinitat.

La intervención en esta zona se inició en el 2011 y hasta octubre se habían localizado una treintena de individuos así como algún resto de cerámica prehistórica. En las últimas semanas, sin embargo, el descubrimiento de cuerpos se ha disparado hasta los 125 contabilizados ayer mismo. A medida que los restos se identifican y documentan se trasladan a los almacenes del centro de conservación y restauración de patrimonio que el Museu d'Història de Barcelona tiene en la Zona Franca. Allí se realizan los tratamientos imprescindibles para efectuar su estudio anatómico.

PRUEBA DEL CARBONO 14 / Los informes de los expertos sitúan este yacimiento entre el neolítico final (del año 2000 al 1800 antes de Cristo) y la primera edad de bronce (del 1800 al 1500). Para establecer con exactitud la época en la que vivieron estos primeros barceloneses, Josep Pujades explicó que se han enviado dos muestras a un laboratorio italiano, solvente y que trabaja con rapidez, para que realice la prueba del carbono 14. Este es un método muy fiable de datación radiométrica que utiliza ese isótopo. En pocos días se tendrán los resultados.

Los 125 cuerpos neolíticos que hasta ahora se han descubierto en La Sagrera corresponden a personas de ambos sexos y de todas las edades. Allí hay hombres, mujeres, niños, jóvenes y adultos. A pesar de la magnitud del enterramiento, que todavía puede crecer bastante más, no se han encontrado por el momento vestigios de algún poblado o de algún tipo de asentamiento que pudiera haber creado la colonia prehistórica.

UNA ANTROPÓLOGA // En el equipo de trabajo se ha integrado también una antropóloga de la empresa Estrats con lo que se da la máxima atención al estudio de los individuos enterrados. Empezando por informaciones básicas sobre sexo, edad y patologías que puedan observarse en un conjunto de huesos tan enteros y bien conservados.

terça-feira, 20 de março de 2012

Obras da variante de Faro da EN125 “descobrem” cemitério romano

Há 1900 anos, entre meados dos séculos II e III depois de Cristo, uma comunidade de agricultores romanos sepultou os seus mortos, ao longo de pelo menos uma centena de anos, num local nas margens do Rio Seco, que hoje se situa nos arrabaldes da atual cidade de Faro, ao lado da Pista de Atletismo.

Onde viviam esses agricultores não se sabe hoje muito bem, porque não foram ainda encontrados vestígios da villa, a grande quinta rural, onde teriam a sua habitação e as zonas de apoio à atividade agrícola.

No entanto, mais ou menos na mesma zona, em finais do século XIX, Estácio da Veiga, considerado o pai da arqueologia portuguesa, identificou uma villa romana, num sítio a que chamou Amendoal. Só que, há mais de cem anos não havia GPS e a localização exata desse povoado rural romano perdeu-se. Por isso não se sabe onde ficava, nem se teria qualquer relação com a necrópole romana agora descoberta.

Se não se sabe onde viviam as pessoas que durante quase dois milénios estiveram enterradas no terreno no Rio Seco, à beira da EN125, pelo menos espera-se agora que os esqueletos relativamente bem preservados e algum – pouco – espólio encontrado em cerca de sete dezenas de sepulturas na necrópole possam dar pistas aos investigadores sobre quem eram estes romanos, onde e como viviam.

A necrópole foi descoberta em agosto passado, durante os trabalhos de acompanhamento arqueológico da Variante de Faro à EN125, por técnicos da empresa Archeocelis, responsável por todo o acompanhamento das obras de requalificação daquela estrada e das respetivas variantes, de Vila do Bispo quase a Vila Real de Santo António.

Mas os trabalhos de escavações só começaram no dia 23 de janeiro deste ano, tendo chegado a ocupar uma equipa de 15 pessoas, entre arqueólogos, estudantes de arqueologia e antropólogos.

Segundo Teresa Miguel Barbosa, a arqueóloga responsável pelos trabalhos na necrópole, estima-se que a intervenção dure apenas mais duas semanas.

«Estamos a fazer todos os registos e levantamentos das sepulturas, a retirar o espólio osteológico e finalmente desmontaremos as estruturas. Depois de termos terminado o nosso trabalho, as obras podem avançar neste local», explicou Teresa Barbosa, em entrevista ao Sul Informação.

Destruição e preservação

Enquanto a equipa de jovens arqueólogos se dedica a registar com todo o rigor, em desenho e fotografia, as sepulturas romanas encontradas – até agora estão identificadas 67, mas poderão ser 70 a 72 nos 870 metros quadrados da intervenção – as obras da variante prosseguem a bom ritmo ali mesmo ao lado.

Da necrópole nada ficará no terreno, que em breve será coberto pelo alcatrão da nova estrada. A memória deste local, do seu espólio e das estruturas funerárias, só poderá depois ser encontrada no Museu Municipal de Faro, onde todo o material ficará depositado.

Mas não se pense que esta é a primeira destruição que a necrópole romana sofre. O cemitério estendia-se originalmente para uma zona onde, em meados do século passado, foi plantado um laranjal, entre a EN125 e a estrada para a Conceição de Faro.

Agricultura, estradas, casas, tudo contribuiu para ir destruindo, a pouco e pouco, os vestígios milenares, em tempos em que não se pensava muito na importância de preservar esses testemunhos do passado.

A própria Pista de Atletismo de Faro, construída há meia dúzia de anos, também deu o seu contributo para a destruição. Pelo menos um dos muros da pista foi construído bem em cima de sepulturas romanas, destruindo-as. E, apesar de se tratar de obras recentes, já obrigadas a acompanhamento arqueológico, não parece que alguém alguma vez se tenha apercebido de que ali havia vestígios que importaria estudar. Ou, se alguém se apercebeu…

Hierarquia na morte, como na vida

Até ao momento foram descobertos, nos 870 metros quadrados, 67 sepulturas romanas, mas pensa-se que poderão ser 72.

«Há uma grande variedade de tipologias de sepulturas: umas mais simples, cobertas com tégulas [telha romana plana] em telhados de uma água, outras em caixa, com telhados em tégula de duas águas, ou mesmo em ânfora», explica a arqueóloga Teresa Barbosa.

«No período romano, a hierarquização na vida também se encontrava na morte». Por isso, algumas das sepulturas eram mais elaboradas, provavelmente indicando que os indivíduos aí sepultados teriam um estatuto social mais elevado na comunidade.

Uma das questões que a arqueóloga da Archeocelis considera ser interessante é o facto de haver «quase o mesmo número de subadultos» (jovens e crianças) enterrados, o que pode estar relacionado com a grande mortalidade infantil e juvenil da época. Mas também pode querer dizer simplesmente que a zona da necrópole investigada pelos arqueólogos era aquela onde se sepultava esses jovens e crianças…

Outro dado curioso é o «enterramento de neonados», de recém-nascidos, o que, naquela época, não era comum, já que se pensava que as crianças não eram propriamente pessoas enquanto não fossem seres pensantes e autónomos, aí pelos 4 ou 5 anos, no mínimo.

«Mas aqui há uma quantidade considerável de neonatos, pelo menos 10», explica a arqueóloga.

Também interessante é a descoberta de recém-nascidos enterrados em ânforas, um tipo de enterramento que ainda não tinha sido identificado no Algarve. Aqui foram encontrados quatro.

Nas sepulturas, há muito pouco espólio para além dos esqueletos, que, embora relativamente bem preservados, quase se desfazem quando se retiram os ossos do seu descanso de 1800 a 1900 anos. «Por isso, antes de tocarmos nos ossos, fazemos o registo o mais rigoroso e completo possível», garante Teresa Barbosa.

Da avaliação prévia dos restos humanos já feita no local e em laboratório pelos antropólogos que integram a equipa, já se conseguiram, por exemplo, identificar as doenças mais comuns desta época, nesta população. E constatou-se, por exemplo, que grande parte das pessoas ali sepultadas, até mesmo as crianças, tinham os dentes muitos desgastados, devido a uma alimentação muito baseada em cereais duros.

Uma oportunidade científica única

As escavações permitiram identificar duas áreas de ocupação da necrópole, desde meados do século II até meados do século III depois de Cristo.

Carlos Pereira, aluno de doutoramento da Universidade Clássica de Lisboa, tem estado a participar nas escavações da necrópole do Rio Seco porque se trata de uma oportunidade que não surge muitas vezes.

É que, como explicou ao Sul Informação, apesar de haver muitas necrópoles romanas identificadas no Algarve, «poucas foram intervencionadas recentemente, com os métodos atuais». Na villa romana de Milreu, perto de Estoi, que fica a meia dúzia de quilómetros deste local, as intervenções foram feitas em finais do século XIX, por Estácio da Veiga. Mas os métodos eram diferentes e, por isso, «não há toda a informação da necrópole».

Bem mais recente foi a intervenção de 2004 no Largo 25 de Abril, em Faro, numa necrópole que faria parte da cidade romana deOssónoba. «As estruturas eram tipologicamente muito semelhantes a estas», garante Carlos Pereira.

Por isso, a esperança do jovem investigador é que esta escavação na necrópole do Rio Seco «forneça dados que faltavam nas outras intervenções». «Não é que estes dados sejam inéditos. A questão é que não tínhamos nenhuma escavação atual, com métodos atuais e com estas dimensões». Daí o interesse científico desta necrópole.

O espólio retirado desta necrópole – ossos, estruturas das sepulturas, algumas peças de cerâmica – será depositado no Museu de Faro. Mas, em conjunto com toda a investigação, será também objeto de divulgação, para um público mais especializado e, espera-se, para o grande público.

Teresa Barbosa disse esperar que os primeiros resultados desta intervenção sejam apresentados em outubro, no Encontro de Arqueologia do Algarve, que costuma ter lugar em Silves. Mas pode ser que haja também uma outra apresentação, mais voltada para o público leigo, em Faro.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Anthropologists Trace Human Origins Back To One Large Goat

'Wait, That Can't Be Right,' Scientists Say
FEBRUARY 17, 2011 | ISSUE 47•07

Researchers say their goat-human evolution theory, on second thought, does feel a little off.

NEW YORK—An international team of anthropologists announced Monday it had traced the lineage of Homo sapiens back to a single large Pliocene-era goat.

"We have mapped out each of the diverse branches of the human family back to the dawn of our species," Douglas Ochs of Columbia University said, "and found that the common ancestor of all living humans was an immense and cognitively advanced goat that roamed the earth 3.4 million years ago, foraging for…uh…"

"Hmm," added Ochs, pausing for a moment. "You know what? Now that I'm actually saying it out loud, it's starting to sound a little weird. Am I…is this the right research paper?"

After staring down at his notes and then quickly shuffling through some files, a visibly flustered Ochs called for aides to cut the looping CGI animation projected behind him, which showed several horned proto-humans covered in thick full-body coats of mohair walking across an African savanna.

Anthropologists claim the early human pictured above "subsisted largely on...wait, is that really the right picture?"

"If everyone could just give me a minute—this all made sense when we started the conference," Ochs said. "Kevin, can you hand me that folder?"

Funded by a grant from the Smithsonian Institution, the 17-year inquiry into the origins of the human race brought together 12 top anthropologists from around the world to pursue the single-large-goat theory, which participants in Monday's presentation assured audience members "felt more plausible when we came up with it, really it did."

The landmark study culminates in this week's release of a 270-page report explaining the structure of prehistoric humans' short, upturned woolly tails and identifying the roots of early Indo-European† language in goat bleating, which, Ochs stated, "maybe [they] should have double-checked real quick" before the paper went to publication.

"There may be some slight inconsistencies in a few of our results, but I assure you these bone samples and behavioral analyses are all, well…look, I'm not going to stand here and tell you they're not a little ridiculous-looking," said Regina Hubbard-Price, associate director of the American Anthropological Association. "Obviously, with hindsight, yes, it's somewhat odd that our theory presupposes complex hunter-gatherer societies composed of large, 250-pound bipedal goat-men. But a lot of thought went into this, I swear."

"Maybe we should have listened to Cliff [Geertz] back at the beginning when he kept emphasizing that humans don't look like goats," Hubbard-Price added.

As their colleagues huddled together and whispered behind them, researchers from Australia and Japan explained how one 6-foot-tall goat with a hominid skeletal structure spawned numerous goat-human hybrids over a period of 1.8 million years. In a series of PowerPoint slides, they then showed that our ancestors used their prehensile upper lips to perform basic agricultural tasks and stomped out crude pottery with their cloven feet, theories that team members stopped reading aloud to the assembled audience almost immediately after reaching the words "cloven feet."

"Okay, so I'm reading this now, and it says, 'After trotting out of Africa nearly 2 million years ago, our earliest ancestors used their strong hooves and hindquarters to climb up steep mountain slopes in search of delicious moss,'" said British anthropologist Oliver Cranmore, reading from the report and shaking his head. "The thing is, I think I actually wrote that part. And I remember feeling very confident and excited about it at the time. This is weird."

After opening the floor to questions, researchers said they were now able to pinpoint what should have been warning signs that their findings were problematic, such as the moment 10 years ago when none of them could account for why present-day humans don't have horns, or the realization in the spring of 2004 that goats today exhibit virtually no humanlike characteristics whatsoever.

In spite of such incongruities, most of the scientists maintained that much of the physical evidence appeared to corroborate the goat- human connection, from countless Paleolithic cave paintings of goats, to the fact that many of man's earliest gods and demons took the form of goats, to colleague Lou Samedi's narrow, pointy beard.

"You know what? This might actually still be right," said University of California professor Han Choi, leafing through printouts of data. "Some male goats can reach almost 160 pounds, and that's pretty close to a normal-sized man."

"So, if you think about it," Choi added before trailing off. "Hold on, sorry."

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

XVII Congresso da Sociedade Espanhola de Antropologia Física

Vai ter lugar em Barcelona o XVII Congresso da Sociedade Espanhola de Antropologia Física durante os dias 2 a 4 de Junho de 2011. A Faculdade de Biologia da Universidade de Barcelona será a anfitriã.

O prazo para entrega de resumos é 1 de Fevereiro e aqui fica a lista de sessões:

1) Applied Anthropology (Public Health)
2) Skeletal Anthropology and Palaeoanthropology
3) Forensic Anthropology and Palaeopathology
4) Human Population Dynamics
5) Genetic Diversity of Human Populations
6) Primatology
7) Somatalogy and Auxology

Todas as informações referentes a este encontro científico podem ser consultadas aqui.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Nós, os Neandertais e agora também a Mulher-X

Era uma mulher. Viveu entre há 30 a 50 mil anos. E, sem que o suspeitássemos até agora, pertencia a um grupo de humanos diferente de nós, mas que se reproduziu com a nossa espécie. Eis a Mulher-X, o primeiro indivíduo identificado desse grupo.

Na gruta Denisova, descobriu-se uma falange e um molar (D.R.)

Este novo capítulo na história complexa da nossa espécie, os humanos modernos ou Homo sapiens sapiens, é contado amanha na revista Nature, pela equipa de Svante Pääbo, guru mundial da paleoantropologia genética do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha.

Em 2008, encontrava-se a ponta do dedo de um humano na Sibéria, na gruta Denisova. Pensando estar perante a falange de um humano moderno, talvez de um Neandertal com sorte, a equipa de Pääbo sequenciou o ADN extraído desse pedaço de osso — não o ADN do núcleo das células, mas o que está nas mitocôndrias, as baterias das células e que é herdado só pela parte da mãe.

Quando viram os resultados, os cientistas não queriam acreditar: tinham em mãos ADN de um humano antigo desconhecido, pertencente a uma linhagem diferente das duas que até aqui se sabia terem habitado a Europa e a Ásia nessa altura — os humanos modernos, que saíram de África há cerca de 60 mil anos, e os Neandertais, que surgiram na Europa e Médio Oriente há 300 mil anos e extinguiram há cerca de 30 mil. Em Março último, a equipa revelou esses resultados, também na Nature, e espantou toda a gente.

Era também a primeira vez que um novo grupo de humanos era descrito não a partir da morfologia dos seus ossos fossilizados, mas da sua sequência de ADN.

Só pelo ADN das mitocôndrias, que está fora do núcleo das células, os cientistas não podiam saber se aquela falange, de um indivíduo com cinco a sete anos de idade, era de homem ou mulher. Mas deram-lhe a alcunha de Mulher-X, porque o ADN mitocondrial é matrilinear e porque gostavam de imaginar que era de uma mulher.

Depois, partiram para a sequenciação do ADN contido no núcleo celular e é a análise desses resultados que agora publicam. Além de confirmarem que a falange é mesmo feminina, os cientistas dizem que este novo grupo de humanos partilha um antepassado comum com os Neandertais, mas cada um seguiu uma história evolutiva diferente. Portanto, há 50 mil anos, além de nós e dos Neandertais, havia um terceiro grupo de humanos. Chamaram-lhe denisovanos.

Também sequenciaram agora o ADN mitocondrial retirado de um dente molar de outro indivíduo, um jovem adulto, descoberto na mesma gruta. Tanto o ADN como a morfologia do dente corroboram que se trata de um humano distinto dos Neandertais e da nossa espécie.

Durante décadas, discutiu-se se os Neandertais se teriam reproduzido ou não com a nossa espécie e se, apesar de extintos, haveria um bocadinho deles dentro de nós. Em Maio, o mesmo Pääbo pôs um ponto final na polémica, com a sequenciação do genoma dos Neandertais, dizendo que sim, que nos actuais euroasiáticos há um pouco de Neandertal. E agora a sua equipa diz que nos humanos modernos há igualmente um pouco dos denisovanos.

Mas, ao contrário dos Neandertais, os denisovanos não contribuíram geneticamente para os euroasiáticos actuais. As comparações genéticas entre os denisovanos e humanos modernos da Euroásia, África e Melanésia mostraram que são estes últimos que herdaram os seus genes.

De facto, a equipa descobriu que os naturais da Papuásia-Nova Guiné e das Ilhas Salomão partilham um número elevado de traços genéticos com os denisovanos, o que sugere que houve reprodução entre estes humanos até há poucos meses desconhecidos e os antepassados dos melanésios.

Sozinhos há pouco tempo
Em conjunto com a sequenciação do genoma dos Neandertais, o genoma dos denisovanos sugere uma imagem complexa das interacções genéticas entre os nossos antepassados e diferentes grupos antigos de hominíneos”, comenta Pääbo, citado num comunicado de imprensa do seu instituto.

O facto de os denisovanos terem sido descobertos no Sul da Sibéria, mas terem contribuído para o material genético de populações de humanos modernos da Papuásia-Nova Guiné sugere que os denisovanos podem ter-se espalhado pela Ásia”, diz.

Para Eugénia Cunha, especialista em evolução humana da Universidade de Coimbra, estes resultados mostram ainda quão diversos eram os grupos humanos no passado. “Sempre houve coexistência de várias espécies. Agora é que estamos numa situação anómala”, sublinha a antropóloga. “Há 50 mil anos, viviam os Neandertais, os humanos modernos e pelo menos este grupo distinto. Só muito recentemente é que nos tornámos a única espécie.

22.12.2010 - 21:12
Por Teresa Firmino in Público

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Chimpanzés coordenam as mãos como os seres humanos

Investigação sugere que utilização preferencial da mão direita não está ligada à linguagem

Os chimpanzés utilizam preferencialmente a mão direita
Os chimpanzés utilizam preferencialmente a mão direita
Os seres humanos são maioritariamente destros. Há alguns anos, pensava-se que esta era uma característica exclusivamente humana. Uma investigação espanhola veio agora confirmar o que já alguns estudos indicavam: os chimpanzés partilham connosco esta distinção.
Num artigo publicado no «American Journal of Primatology», os cientistas afirmam que “ambas as espécies têm um funcionamento cerebral parecido”. O estudo foi realizado por uma equipa multidisciplinar da Fundación Mona, da Universidade Rovira i Virigili (Tarragona), do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social e da Universidade de Barcelona.

Os investigadores explicam que a utilização preferencial de uma das mãos é uma característica que reflecte a divisão funcional do cérebro na execução de uma série de tarefas. Do ponto de vista da evolução é importante saber desde quando esta está presente no ser humano, pois assim poderá explicar-se o surgimento da linguagem e da tecnologia.
Antigamente, acreditava-se que o hemisfério esquerdo seria dominante sobre o direito devido ao processamento de informação linguística, influenciando o uso da mão direita para as actividades quotidianas. Nos últimos anos começou a questionar-se isso e se seríamos os únicos com essa característica.
No caso dos primatas, nomeadamente dos chimpanzés, estudos norte-americanos já indicavam que estes seriam maioritariamente destros, tal como o ser humano. Mas as investigações tinham sido realizadas com animais em cativeiro.
Neste estudo recente foram utilizados 114 chimpanzés, da espécie Pan troglodytes, que vivem na natureza, em dois Centros de Recuperação de Primatas: Chimfunshi (Zâmbia) e Fundación Mona (Riudellots de la Selva, Girona).
Miquel Llorente, da Fundación Mona
Miquel Llorente, da Fundación Mona


Os investigadores detectaram acções complexas que implicam o uso e a coordenação de ambas as mãos. Chegaram à conclusão que têm uma assimetria manual semelhante aos humanos. Além do mais, as fêmeas são mais destras do que os machos, o que sugere que existem factores biológicos (genéticos e hormonais) que influenciam o funcionamento do cérebro.
Segundo Miquel Llorente, responsável por este projecto, “as raízes evolutivas desta característica seriam muito mais profundas do que até agora se pensava e teriam aparecido há seis ou sete milhões de anos, altura em que aconteceu a divergência entre chimpanzés e hominídeos. A assimetria manual não será, então, devido à linguagem”.
Os resultados “são o reflexo da desmistificação de muitas das coisas que eram tidas como singularidades da nossa espécie, como o uso de instrumentos ou uma complexa vida social”, explica. Agora, há evidências de que os chimpanzés, quando realizam acções complexas que requerem a utilização de instrumentos ou a coordenação de ambas as mãos, usam preferencialmente a direita.
Deste ponto de vista, pode dizer-se que compartilhamos um tipo de funcionamento cerebral semelhante e que foi sobre essa base que o ser humano construiu uma tecnologia altamente complexa e um sistema de comunicação flexível e poderoso.


2010-10-28

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Open Anthropology Cooperative Press

Open Anthropology Cooperative Press (OACP) em Língua Portuguesa é a secção responsável por todas as publicações em Língua Portuguesa dentro da iniciativa global chamada Open Anthropology Cooperative (OAC). Esperamos receber uma grande variedade de trabalhos, desde artigos ainda em fase de desenvolvimento até aqueles que já estejam finalizados. O importante é que todos os trabalhos procurem, de alguma maneira, avançar a Antropologia por meio do engajamento com ideias radicais e inovadoras. Os artigos podem ser sobre qualquer tema dentro das sub-disciplinas da Antropologia ou, ainda, sobre temas interdisciplinares com os quais antropólogos desejem por acaso trabalhar.
O material por nós publicado estará disponível online em formato apropriado para download. Normalmente, essas publicações também serão colocadas em um fórum de discussão da OAC para que possamos receber comentários e assim ter um debate sobre os temas em questão. Não há restrições quanto a re-publicação de material já publicado pela OACP.
A editoria da OACP em Língua Portuguesa espera receber propostas de todo e qualquer membro da cooperativa. Aceitamos artigos independentemente do número de palavras. Para enviar propostas, por favor, entrem em contato com os editores Vanessa Campanacho e Moisés Lino e Silva pelo email: oacpress@openanthcoop.net. Responderemos a todas as mensagens dentro do menor tempo possível.

Bem-vindos(as)!
Para mais informações: http://openanthcoop.net/press/

domingo, 5 de setembro de 2010

Human Meat Just Another Meal for Early Europeans?

Cannibalism helped meet protein needs, keep rivals in line, study suggests.

For some European cavemen, human meat wasn't a ritual delicacy or a food of last resort but an everyday meal, according to a new study of fossil bones found in Spain.
And, it seems, everyone in the area was doing it, making the discovery "the oldest example of cultural cannibalism known to date," the study says.
The 800,000-year-old butchered bones from the cave, called Gran Dolina, indicate cannibalism was rife among members of western Europe's first known human species, Homo antecessor.
The fossil bones, collected since 1994, reveal that "gastronomic cannibalism" was commonplace and habitual—both to meet nutritional needs and to kill off local competition, according to the study, published in the August issue of Current Anthropology.

Cannibals Gave New Meaning to "Brain Food"
The cannibalism findings are based on leftover bones bearing telltale cut and impact marks, apparently from stone tools used to prepare the cave meals.
The butchered remains of at least 11 humans were found mixed up with those of bison, deer, wild sheep, and other animals, said study co-author José Maria Bermúdez de Castro.
As well as de-fleshing marks and evidence of bone smashing to get at the marrow inside, there are signs the victims also had their brains eaten.
Cuts and strikes on the temporal bone at the base of skull indicate decapitation, said Bermúdez de Castro, of the National Research Center on Human Evolution in Burgos, Spain.
"Probably then they cut the skull for extracting the brain," he added. "The brain is good for food."

Photo: carbonell cannibalismbones
Bones found in a Spanish cave show evidence of impact and cut marks.
Photograph courtesy Current Anthropology

Human: It's What's for Dinner?
Because human and animal remains were tossed away together, the researchers speculate that cannibalism had no special ritual role linked to religious beliefs.
Nor was human meat an emergency food consumed only in lean times, Bermúdez de Castro said.
Cannibalized human bones were found in cave layers spanning a period of around a hundred thousand years, suggesting the practice was fairly consistent, according to the study.
Furthermore, the European cannibals should have had little reason for hunger.
The surrounding Sierra de Atapuerca region (regional map) would have been a "fantastic" habitat for early humans, with plenty of food and water as well as a mild climate, he said.

Cannibals Preferred Fresh Meat?
Humans attracted to Sierra de Atapuerca would have fought over the fertile territory—and cannibalism would have been a good way of dealing with the competition, Bermúdez de Castro said.
But it might not have resulted in the fairest of fights—the 11 cannibalized individuals discovered so far were all children or adolescents.
Targeting youngsters who were less able to defend themselves "posed a lower risk for hunters" and "would have been effective in the strategy of controlling competitors," according to the study.

Cannibalism Widespread for Early Humans?
Paleontologist Silvia Bello agreed that "the distribution of [impact] and cut marks and the similarity of signs on humans and nonhuman remains make the hypothesis of cannibalism for this site likely."
The evidence that cannibalism "was a common, functional activity, not directly related to food stress or ritualistic behavior" is also convincing, said Bello, of the Natural History Museum in London.
However, she added, it's hard to be sure whether the cannibals were eating individuals from their own group or outsiders.
Anthropologist Peter Andrews also backs the team's interpretation, with caveats.
"It appears that cannibalism was widespread during much of human evolution, and it is likely that it may have been even more widespread than present evidence indicates, for some early work on [human ancestor] sites may have failed to identify the evidence for cannibalism," Andrews, formerly head of human-origins studies at the Natural History Museum, said in an email.
Nevertheless, he added, "we still have no way of knowing whether cannibalism was habitual or restricted to periods of stress, for time scales in archaeological sites are usually not fine enough to distinguish them."
To truly be able to identify part-time vs. regular cannibalism, Andrews said, "you would need evidence on a time scale of less than one year."


James Owen
Published August 31, 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A estrada da evolução

A área do curso médio do rio Awash, na Etiópia, é a região da Terra com uma~ocupação humana mais persistente. Há quase seis milhões de anos que membros da nossa linhagem ali vivem. Entretanto, a erosão solta ossadas do solo. Caso a caso, elas documentam a maneira como um primata foi evoluindo até conquistar o planeta. Haverá melhor sítio para perceber como nos tornámos humanos? 

Fotografia por Tim D. Branca. Reconstrução digital do Ardipithecus ramidus, modelado em resina.

A vida é frágil em África, mas alguns restos mortais têm uma história para contar. A bacia de Afar localiza-se mesmo em cima de uma falha, em alargamento, da crosta terrestre. Ao longo das eras, os vulcões, os terramotos e a lenta acumulação de sedimentos convergiram entre si para enterrar as ossadas e, muito mais tarde, as devolverem à superfície sob a forma de fósseis. De acordo com o paleoantropólogo Tim White, da
Universidade da Califórnia, “há milhões de anos que morrem pessoas neste lugar. De vez em quando, temos a sorte de descobrir aquilo que delas resta”.
No passado mês de Outubro, o projecto de investigação Middle Awash, co-dirigido por Tim White juntamente com os colegas Berhane Asfaw e Giday WoldeGabriel, anunciou um achado produzido 15 anos antes: a descoberta do esqueleto de um membro da família humana morto há 4,4 milhões de anos num local denominado Aramis, cerca de trinta quilómetros a norte do lago Yardi. Pertencente à espécie Ardipithecus ramidus, esta adulta (baptizada “Ardi”) tem mais de um milhão de anos do que a famosa Lucy e fornece informação sobre um dos problemas--chave da evolução: a natureza do antepassado que partilhamos com os chimpanzés.

Texto de Jamie Shreeve
Reportagem completa in nationalgeographic do mês de Julho.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Esqueleto encontrado numa arriba perto do Vale do Lobo é indício de uma vila romana

Na praia do Trafal, situada entre Quarteira e Vale do Lobo, no Algarve, foi encontrado um esqueleto incrustado na arriba, numa zona referenciada como uma "vila romana". O recuo da linha de costa, acentuado no último Inverno, trouxe à superfície os vestígios arqueológicos do sítio designado por "Loulé Velho".
Os ossos expostos despertaram a atenção dos banhistas. As reclamações que chegaram à Câmara de Loulé levaram o município a propor "escavações de emergência" para preservar, na medida do possível, o património. As entidades com jurisdição na área - Capitania do Porto de Faro, Administração da Região Hidrográfica (ARH) e Igespar - deram o aval. O capitão do porto de Faro, Marques Pereira, disse que as "autorizações estão concedidas" e que fez um despacho na passada sexta-feira, recomendando que se proceda à vedação do local, por uma questão de segurança, quando os trabalhos se iniciarem.
O vereador da Cultura, Joaquim Guerreiro, disse que ainda não teve conhecimento do assunto, mas manifestou "preocupação, pela eventual perda de peças arqueológicas, e o impacto junto dos banhistas". O autarca salienta que o município só tomou a iniciativa de desenvolver este trabalho, "por falta de resposta das entidades com responsabilidade directa nesta área". Os achados arqueológicos encontram-se visíveis a partir da praia, facto que "tem levado a protestos e reclamações". O vice-presidente do Igespar, João Pedro Ribeiro, considera que é um "património que está em risco, por acção do avanço do mar" e que deve ser preservado. Os indícios apontam para a existência de uma "antiga povoação", mas não se trata de uma "área classificada".
Nestas circunstâncias, adiantou, o Igespar vai "disponibilizar uma arqueóloga" para colaborar com as escavações que se irão seguir, ainda sem data marcada, a cargo do município de Loulé.
O local está à mercê da investida de curiosos, daí a necessidade de uma intervenção que registe o que existe, uma vez que não existem meios disponíveis para aprofundar as prospecções e determinar qual a real dimensão e importância da povoação conhecida como "Loulé Velho", que tem vindo a cair aos bocados à medida que o mar avança sobre a terra.

29.06.2010 - 07:39

terça-feira, 29 de junho de 2010

"Hobbits" não eram apenas homens pequenos

Análise aos ossos encontrados do homo florensiensis prova que não sofriam de cretinismo
Hobbits encontrados mediam um metro de altura
Hobbits encontrados mediam um metro de altura
Um estudo, a ser publicado no início de Junho no Journal of Comparative Human Biology, garante que o homo floresiensis, conhecido mais popularmente por hobbit, que vivia na ilha das Flores, na Indonésia, não se tratava de um ser humano com nanismo, como vinha sendo sustentado até então.
Os hobbits viveram há 18 mil anos e eram uma espécie separada de hominídeos. Em 2003, foram descobertos restos de uma fêmea que media um metro e pesava trinta quilos. Depois desta descoberta, vários cientistas encontraram outros indivíduos com características semelhantes na ilha indonésia.
Inicialmente, acreditava-se que se tratava de uma nova espécie de hominídeo e estes seres pequenos foram apelidados de hobbits, em homenagem às personagens de «O Senhor dos Anéis», do escritor J.R.R. Tolkien.
Em 2008, Peter Obendor, da Universidade RMIT, em Melbourne, na Austrália, afirmou que os restos encontrados eram de humanos modernos que sofriam de cretinismo, uma doença causada pela falta de iodo.
No estudo publicado esta semana, Colin Groves, da Universidade Nacional da Austrália, em Camberra, comparou os ossos encontrados nas Flores com os de dez pessoas que sofriam de cretinismo.
Colin Groves, bioantropólogo, autor do estudo
Colin Groves, bioantropólogo, autor do estudo
O investigador focou o trabalho nas características anatómicas típicas da doença, muito semelhantes ao nanismo.
A conclusão do estudo não deixou margem para dúvidas: não havia qualquer sobreposição entre as características de cretinismo nos humanos e nos ossos encontrados na ilha das Flores.

Mescla anatómica intriga cientistas
A anatomia do homo floresiensis tem características do Australopiteco e do Homo Erectus com outras do Homo Sapiens.
A altura é semelhante à dos Australopithecus mas a estrutura do crânio e a dentição já são mais parecidas à do Homo Erectus. As mãos são desenvolvidas mas de pequena dimensão, assemelham-se às do Homo Sapiens.
Há ainda várias hipóteses teóricas sobre a extinção destes pequenos homens. Uns acreditam que a competição com o homem moderno acabou com a espécie e outros apostam numa erupção vulcânica ocorrida na ilha.

2010-06-28

terça-feira, 11 de maio de 2010

Seres humanos carregam herança genética de Neandertais

Cientistas do Instituto Max Plank sequenciaram genoma do Neandertal e compararam-no com humanos modernos
Svante Päabo, do Instituto Max Plank, liderou o estudo

O Homo sapiens sapiens actual, da Europa e da Ásia, tem entre um e quatro por cento de DNA Neandertal, o hominídeo que desapareceu há 30 mil anos. Esta é a conclusão de um estudo realizado por investigadores do Instituto Max Plank, na Alemanha, publicado sexta-feira na revista «Science».
Durante quatro anos, os investigadores estudaram e sequenciaram o genoma do Neandertal. Analisaram diversos fragmentos extraídos de ossos desta espécie extinta, que tinham sido encontrados na Croácia, Rússia, Alemanha e Espanha. Depois, compararam os dados com humanos actuais da Europa, da Ásia e de África.
O director do Departamento de Genética Evolutiva do Instituto Max Plank, que liderou a investigação, Svante Päabo, destaca esta descoberta como fundamental para o conhecimento da evolução humana.
Muitos investigadores tinham sérias dúvidas sobre o possível cruzamento entre os primeiros sapiens e os Neandertais, apesar de terem já aparecido vários esqueletos que indicavam existir hibridação. Contudo, apenas agora foi possível provar com dados genéticos essa teoria.
O homem de Neandertal apareceu no Próximo Oriente e na Europa há 400 mil anos, 200 mil anos antes do sapies sapiens existir e se ter começado a espalhar pelo mundo a partir de África. Os primeiros cruzamentos terão acontecido no Médio Oriente, entre 80 mil e 50 mil anos atrás.
O genoma neandertal foi comparado com o de cinco humanos actuais da África Meridional e Ocidental, de França, da China e da Papua Nova Guiné. O estudo revelou que o Neandertal partilha 99,7 por cento dos genes do sapiens sapiens.
No entanto, apenas dos seres humanos que habitam fora de África têm a herança genética dos Neandertais, o que reforça a ideia de que o cruzamento terá mesmo acontecido.

Artigos:

In: CiênciaHoje
2010-05-10

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Antropóloga portuguesa publica livro sobre como nos tornámos humanos

É o primeiro livro de divulgação científica de Eugénia Cunha, antropóloga forense e especialista em evolução humana. "Como nos Tornámos Humanos", publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, e que vai ser lançado no próximo dia 13 (no Museu da Ciência daquela universidade, às 17h30), cabe no bolso do casaco, ou não tivesse só 17 por 12 centímetros. Mas contém tudo o que é essencial para compreender o que se lê e ouve sobre evolução humana.

Eugénia Cunha é especialista em evolução humana da Universidade de Coimbra
(Paulo Ricca/PÚBLICO)

Tem as descobertas importantes de fósseis, numa espécie de "quem é quem" dos protagonistas da nossa história evolutiva, sistematiza os conhecimentos, traça o "estado da arte", tudo de forma concisa e simples. Inclui referências a alguns achados portugueses, como a criança do Lapedo, com 24 mil anos ("o mais importante fóssil humano alguma vez descoberto em Portugal").
Nesta história, já sabemos como tudo acaba: somos agora a única espécie de humanos ("Homo sapiens"), mas houve muitas outras, como o "Homo habilis", o "Homo erectus" ou o "Homo neanderthalensis", algumas coexistiram, e descobrir como chegámos até aqui faz-nos continuar a ler.
"O que nos torna humanos constitui uma incrível questão científica", lê-se no início. "O destaque da imprensa à nossa história natural fundamenta-se por se tratar das nossas origens, de saber quem foi o 'big daddy', enfim compreender por que somos como somos."
Eugénia Cunha leva-nos, assim, numa viagem com início há 55 milhões de anos, quando surgiram os primatas, e, com grande parte da acção em África, conta como nos fomos tornando no que somos: bípedes, com cérebros grandes, fabricantes de ferramentas, com uma linguagem articulada e produtores de símbolos.

In Público
09.04.2010 - 12:52
Por Teresa Firmino